Warren Buffett
pisou pela primeira vez as calçadas de Wall
Street quando era apenas um garoto de 10
anos. Ele partiu em viagem com seu pai da
pacata Omaha, no meio-oeste americano, com
destino a Nova York para comemorar seu
décimo aniversário. Como presente, o pequeno
Buffett quis conhecer três lugares — uma
fábrica de selos e moedas, outra de trens de
brinquedo e, algo bem incomum para um menino
de sua idade, a bolsa de valores. Uma cena
em especial marcou sua vida dali em diante,
um encontro inesperado com um dos homens
mais poderosos de Wall Street, Sidney
Weinberg, o então presidente do banco
Goldman Sachs. Weinberg colocou as mãos em
seu ombro e perguntou: “De que tipo de ação
você gosta, Warren?” Nos anos seguintes,
Buffett dedicou-se obstinadamente a
encontrar a resposta. O resultado é uma das
estratégias de investimento mais
bem-sucedidas e reverenciadas de toda a
história. Warren Buffett, hoje um senhor
bonachão de 78 anos, tornou-se uma máquina
de ganhar dinheiro sem par. Seu sucesso,
mantido em mais de meio século de altos e
baixos do mercado, virou lenda — uma lenda
que ele soberbamente mantém atual. Uma de
suas cartadas mais recentes — e
surpreendentes — salvou o Goldman Sachs,
outrora presidido por Weinberg, de ser
engolido pela maior crise financeira das
últimas décadas. No final de setembro,
Buffett investiu 5 bilhões de dólares no
Goldman. Provar que essa aquisição foi mais
um tiro certeiro será um dos maiores
desafios de sua carreira. Seus ensinamentos,
baseados em puro bom senso, surgem como luz
num momento especialmente sombrio e incerto
do mercado financeiro.
O sucesso
acumulado durante décadas transformou
Buffett numa espécie de ídolo dos
investidores. Todos os anos a concorrida
convenção de acionistas de sua holding — a
Berkshire Hathaway, que possui participações
de empresas como Coca-Cola e American
Express — tira a cidade de Omaha de seu
marasmo interiorano, num evento tão
catártico que as pessoas se referem a ele
como um Woodstock do mundo dos negócios. A
multidão aumenta ano após ano e, em maio de
2008, reuniu mais de 50 000 visitantes. Quem
espera encontrar um típico barão de Wall
Street com um terno bem cortado pode se
surpreender com um sujeito com a gravata e
os cabelos desalinhados e que parece se
divertir com a própria popularidade. O maior
investidor-celebridade do planeta já cantou
em frente à platéia da convenção de
acionistas da Berkshire, apareceu em duas
novelas americanas (a mais recente delas, em
março deste ano, no papel dele mesmo) e por
diversas vezes pôs a leilão a chance de
almoçar ou jantar com ele no popular site
eBay (em todas elas, destinou o próprio
cachê milionário a causas filantrópicas). O
fascínio que Buffett desperta arrasta uma
legião de seguidores que se autoproclamam “buffettologistas”,
além de uma lista infindável de livros sobre
seu estilo de investimento. “Para seu
deleite, ele sempre se manteve no
noticiário”, diz Alice Schroeder, a
ex-analista de investimento que escreveu a
biografia Snowball, lançada no dia 29 de
setembro.”
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Os números de Buffett |
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As
cifras que marcam a trajetória do
megainvestidor de 78 anos de idade |
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5 mil dólares eram
suas economias aos 16 anos (o
equivalente a 53 000 dólares
atuais). Nessa época, ele já ganhava
mais dinheiro que seus professores |
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5 dólares foi seu
lucro ao vender as três primeiras
ações que comprou em sua vida, aos
12 anos de idade, da empresa Cities
Service Preferred |
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31,5 mil dólares é
quanto pagou pela casa que comprou
em sua cidade natal, Omaha, nos anos
50, e onde mora até hoje |
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50 bilhões de dólares
(1) é a fortuna pessoal do
megainvestidor, um dos homens mais
ricos do mundo segundo a revista
americana Forbes |
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100 dólares foi o
investimento pessoal de Buffett em
sua primeira empresa, a Buffett
Associates, que ele montou aos 26
anos de idade |
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Alice é uma
delas. Durante os cinco anos que levou para
escrever Snowball (“Bola de neve”, em
português, uma metáfora da capacidade de
Buffett de fazer com que dinheiro chame mais
dinheiro), ela teve acesso privilegiado ao
investidor — o que distingue drasticamente
seu livro das dezenas de livros já
publicados sobre Buffett. A obra, que será
lançada em português em novembro pela
editora Sextante, mostra pela primeira vez
como os princípios de seu estilo de investir
foram moldados desde a infância. Um dos
principais surgiu por influência de seu pai,
Howard, dono de uma pequena empresa de
investimentos em Omaha. O precoce Buffett
desde muito jovem batizou-o de inner
scorecard. Numa tradução livre, trata-se de
algo como um “placar interno”, capaz de
fazer com que alguém tome decisões baseadas
apenas em suas convicções e isentas da
influência de outras pessoas. Mais tarde,
esse princípio foi aprimorado com seu
professor Ben Graham, na Universidade
Columbia, em Nova York. Com Graham, que se
tornou também seu primeiro e único chefe,
Buffett aprendeu a ver o mercado financeiro
como Mr. Market, um sujeito temperamental
que oferece ações a preços que não fazem
sentido e que, de tempos em tempos, dá a
chance de comprar barato e vender caro. (A
devoção ao pai e ao guru Ben Graham era
tanta que ele batizou seu primogênito de
Howard Graham Buffett. Apesar das
“credenciais”, Howard Graham nunca se
interessou pelo mercado financeiro e decidiu
cuidar de uma fazenda e dedicar-se a causas
ambientais.) A lógica por trás desse
distanciamento fez com que Buffett
preferisse continuar morando na distante
Omaha, a cerca de 2 000 quilômetros do
centro financeiro de Nova York, quando
decidiu montar sua empresa de investimentos,
aos 26 anos. A determinação em seguir apenas
as próprias convicções forjou uma de suas
frases mais célebres: “Nunca ouço analistas.
Wall Street é o único lugar onde pessoas que
andam de Rolls-Royce tomam conselhos de quem
anda de metrô”. O resultado é um dos
princípios básicos do estilo de Buffett: a
imunidade ao efeito manada, que o faz
ignorar muitas vezes o frisson do mercado e
a tomar decisões que contrariam o senso
comum.
Tal princípio
se mostrou valioso no auge da bolha da
internet. Buffett não investiu um centavo
sequer nas ações de tecnologia que subiam a
uma velocidade espetacular e foi um dos
únicos e mais resistentes profetas do
estouro da bolha diante de uma multidão de
céticos que chegaram a decretar seu ocaso.
Buffett também foi um dos primeiros a
alardear os perigos da atual crise
financeira que está arrasando os mercados
internacionais. Em 2002, já falava que os
derivativos eram arma de destruição em massa
capaz de causar colisões entre Nova York,
Paris, Londres e outras partes do mundo —
enquanto a maioria achava que ele estava
apenas exagerando. O livro mostra que, em
maio deste ano, o investidor já previa
desdobramentos sérios para a crise. “Muita
gente diz que a crise pode ser curta e rasa.
Eu diria que ela será longa e profunda”,
afirma ele em Snowball.
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Os mandamentos do
megainvestidor |
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Warren Buffett criou um estilo
peculiar para gerir seus
investimentos. Veja as máximas do
“oráculo de Omaha” |
1 - “O mercado está aí para
servi-lo — não para dominá-lo.”
Buffett costuma chamar o mercado
financeiro de Mr. Market — um
sujeito temperamental que, em geral,
oferece ações a preços que não fazem
sentido. Segundo Buffett, o humor
instável desse personagem não deve
influenciar sua visão em relação ao
preço das ações. E, de tempos em
tempos, Mr. Market oferece a chance
de comprar barato e vender caro. |
2 - “Seja audacioso quando
os outros estão com medo e tenha
medo quando os outros estão
audaciosos.”
Buffett sempre aproveitou momentos
de baixa para comprar. Após uma
crise que derrubou a cotação dos
bancos no final dos anos 80, ele
comprou cerca de 10% das ações do
Wells Fargo por metade de seu valor
meses antes. Até hoje é um de seus
melhores investimentos. |
3 - “A principal
característica de um bom investidor
é temperamento.”
Nada é tão importante para um bom
investidor quanto ter nervos de aço.
É fundamental, segundo Buffett, não
apoiar as próprias decisões no calor
do mercado. Ele sempre se refere ao
que chama de inner scorecard (algo
como “placar interno”), um conjunto
de crenças que não mudam ao sabor da
opinião da maioria. |
4 “Nunca ouço analistas.
Wall Street é o único lugar onde
pessoas que andam de Rolls-Royce
tomam conselhos de quem anda de
metrô.”
Quando diz que não dá ouvidos à
maioria, Buffett inclui analistas de
mercado. Por isso, ele prefere morar
na distante Omaha, cerca de 2 000
quilômetros de Wall Street (na mesma
casa, aliás, que comprou há cinco
décadas por 31 500 dólares). |
5 - “A diversificação só é
necessária quando os investidores
não entendem o que fazem.”
Ao contrário do que prega a maioria,
Buffett não diversifica demais seus
investimentos — e ele investe em
empresas com boa gestão e que atuam
em ramos que entende e pode
analisar. Nos anos 80, em sua busca
por informações, ele fez um acordo
com o Wall Street Journal para
receber o jornal em casa em primeira
mão. |
6 - “No curto prazo, o
mercado funciona como uma banca de
apostas. No longo prazo, tende a ser
ponderado.”
De acordo com Buffett, a bolsa pode
punir boas ações no curto prazo
durante uma crise. Mas, no longo
prazo, tende a valorizar empresas
com bons fundamentos. Ele costuma
dizer que, ao comprar ações de boas
empresas, o melhor prazo de
investimento é “para sempre”. |
A trajetória
de Buffett esclarece por que alguém que
vislumbra “uma crise longa e profunda”
decide abrir uma temporada de compras no meio da turbulência.
Nas últimas semanas, o maior de todos os
investidores não apenas injetou 5 bilhões de
dólares no Goldman Sachs — comandado por
Lloyd Blankfein — como também comprou o
controle da empresa de energia Constellation
por cerca de metade de seu valor de mercado.
Buffett também investiu 6,5 bilhões de
dólares para que a fabricante de doces Mars
pudesse comprar a concorrente Wrigley numa
decisão anunciada em abril deste ano. No
total, dedicou cerca de 20 bilhões de
dólares em novos investimentos em 2008.
“Esse é o tipo de ambiente, que acontece de
tempos em tempos, que permite à Berkshire
explorar oportunidades de fortalecer seu
portfólio”, disse Lawrence Cunningham, professor da Universidade George
Washington e autor de um livro sobre Warren
Buffett. “Buffett tem um foco no longo
prazo, em contraste com o curto prazo de
executivos e banqueiros que agora estão
pagando o preço de suas manobras.” Foi assim
também em outras ocasiões, como na compra do
banco Wells Fargo, após a crise financeira
do final dos anos 80, por metade de seu
valor de mercado. Até hoje esse é um de seus
principais investimentos — e o banco vem
resistindo à crise por não ter entrado em
muitas das operações de crédito que levaram
seus concorrentes à bancarrota nos últimos
meses.
Seu estilo
pode ser mais monótono e menos mirabolante
do que sugere o tamanho de sua fortuna
pessoal, estimada em 50 bilhões de dólares e
que o coloca como o segundo homem mais rico
dos Estados Unidos, atrás apenas de seu
amigo Bill Gates. Buffett é um dos sujeitos
mais avessos ao risco que se pode encontrar
em Wall Street. A disciplina que segue à
risca ao analisar um investimento é quase
enfadonha. Buffett se baseia na profunda
análise dos fundamentos de uma empresa — e
apenas nisso — para comprar seus papéis. Ele
era tão obcecado por obter informações sobre
as empresas que, durante os anos 80, fez um
acordo com o Wall Street Journal para
receber os jornais em primeira mão — antes
da meia-noite, enquanto os demais assinantes
só poderiam ler o diário pela manhã.
Sua biografia
também deixa clara uma relação direta entre
a obsessão por acumular dinheiro — que se
manifestou desde os 6 anos de idade, quando
começou a juntar os primeiros centavos com a
venda de chicletes — e a frugalidade em seus
hábitos de consumo. Buffett não tem
motorista e dirige ele mesmo um Cadillac DTS
(um veículo zero-quilômetro desse modelo
custa cerca de 40 000 dólares). Mora na
mesma casa há 50 anos — um imóvel no centro
de Omaha pelo qual pagou 31 500 dólares.
Enquanto pôde, resistiu a comprar um jato
particular. Foi vencido em 1986, quando
adquiriu um modelo Falcon 20 — usado, claro.
Anos depois, achou uma maneira mais
eficiente de resolver a questão. Montou uma
empresa, a JetNets, que aluga cotas de
aeronaves. Seu passatempo preferido é jogar
bridge no computador. Buffett não costuma ir
a restaurantes caros e sua dieta se baseia
principalmente em amendoim, hambúrguer,
batata frita e Coca-Cola.
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A resposta de Buffett à
crise |
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Nos
últimos nove meses, Warren Buffett
investiu cerca de 20 bilhões de
dólares em novas participações. Veja
os principais investimentos que ele
fez nos Estados Unidos |
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5 bilhões de dólares
para a compra de cerca de 10% das
ações do Goldman Sachs. O negócio
foi fechado em 23 de setembro e
Buffett pagou pelos papéis cerca de
metade do valor que eles tinham há
um ano |
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5 bilhões de dólares
pela empresa de energia
Constellation. Buffett pagou 26,50
dólares por ação — um quarto de seu
valor no final de 2007. O negócio
saiu no dia 18 de setembro |
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6,5 bilhões de dólares
para financiar parte da aquisição da
fabricante de doces Wrigley pela
concorrente Mars. Anunciada em
abril, a compra foi efetivada em 25
de setembro |
A obra mostra
também seu lado menos conhecido, o de um
sujeito muito hábil no mundo dos negócios,
mas inseguro nas relações pessoais. Na
juventude, essa insegurança o tornou
discípulo do especialista Dale Carnegie,
autor do livro Aprenda a Fazer Amigos e
Influenciar Pessoas. Buffett usou seriamente
suas indicações, até mesmo para conquistar
Susan, com quem se casou aos 22 anos. A
dificuldade de se relacionar e expressar as
emoções, mesmo em sua própria família,
acabou com seu casamento. Nos anos 70, Susan
chegou a estimular que ele vivesse com outra
mulher, Astrid Menks. Um de seus raros
amigos é o fundador da Microsoft, Bill
Gates. Os dois se conheceram num jantar em
1991. Na época, Buffett não via nenhuma
razão para colocar as mãos num computador.
Embora tivessem uma visão oposta sobre
tecnologia, os dois se tornaram tão próximos
que Buffett chegou a se referir a Gates como
sua alma gêmea. Uma das convicções que os
dois dividiam é que para ser bem-sucedido é
preciso ter disciplina. Em 2006, a amizade o
fez se comprometer a entregar cerca de 80%
de sua fortuna à Fundação Gates, organização
filantrópica do empresário — a maior parte
será doada depois de sua morte. “A idéia de
passar a riqueza de geração para geração vai
contra uma sociedade meritocrática”, diz
ele, um ferrenho defensor da remuneração
baseada no desempenho. Para Buffett, o mundo
pode ter ficado um pouco menos previsível.
Mas seus principais valores e sua visão de
risco são praticamente os mesmos dos tempos
de criança, em que vendia chiclete para a
vizinhança, batendo de porta em porta. A
crise atual vai, novamente, colocar essa
cartilha em xeque. No entanto, os
“buffettologistas” não duvidam de que esta
será uma oportunidade para ele ganhar (ainda
mais) dinheiro. “É em tempos de crise como
agora, em que todos estão temerosos em
relação ao futuro, que ele faz suas apostas
mais ousadas”, afirma Keith Trauner, diretor
do fundo Fairholme Capital Management, um
dos investidores do Berkshire Hathaway.